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Nov
07

Stella Cafe

28 de Outubro de 2007. Aeroporto de Bruxelas. Stella Cafe. Está um ambiente leve. Toca um jazz com ritmo lento. As mesas estão quase todas cheias e de um modo geral todos parecem estar descontraídos. Se não fosse o relógio não diria que são três da manhã. Os aeroportos têm essa característica, tornam a noite dia.

Abri o computador para escrever os eventos que me levaram a estar aqui a esta hora. Para mais tarde me rir um bocado. E principalmente para passar o tempo.

Lisboa 18h. O avião que me traz do Porto chega na hora planeada. Saio do avião e ligo o telemóvel pois tenho que telefonar para o hotel de Beerse a confirmar que me vão deixar a chave do quarto na caixa do correio. Como vou chegar por volta da meia noite já não vai estar ninguém na recepção, mas nestes casos eles deixam a chave do quarto e do hotel na caixa do correio. É um funcionamento curioso mas não posso dizer que seja novidade. Na alemanha já me tinham feito isso uma vez.

Acabo de ligar o telemóvel e vejo uma mensagem:

Info TAP: O seu voo TP 618 de LIS está atrasado hora prevista 2007-10-28 20:30

Quando acabei de ler a mensagem já estava a ver o que seria a minha noite. Para a TAP uma hora de atraso é o normal. Por isso avisar-me do atraso de uma hora é uma forma suave de me dizer que a coisa está complicada. Para já é uma horinha, o resto vem depois. O hotel, com a chave na caixa do correio não é um problema. Posso chegar a qualquer hora. Mas alugar o carro é que se torna um problema, pois no máximo à meia-noite fecham o estaminé. Definitivamente os belgas não gostam de trabalhar à noite.

E enquanto espero no balcão de embarque dou por mim a ver um filme musical juvenil na SIC. Numa situação normal não me consigo imaginar a ver um filme destes. Se calhar não há filmes maus, nós é que às vezes não estamos com o espírito certo.

Ouço um aviso no sistema de som. Os passageiros do voo TP 618 para Bruxelas podem ir ao restaurante Harrods onde será servido um snack. Bom, lá fui. Já tinha jantado, mas sempre deu para beber um fino.

O embarque sempre começou às 20:30. Como estava sentado perto do balcão fiquei perto do início da fila. Isso permitiu-me perceber claramente o conteúdo da discussão entre os assistentes da TAP e os primeiros passageiros da fila. Na verdade teria percebido mesmo que tivesse no final da fila, pois a coisa chegou ao nível dos gritos. A TAP estava a informar que o voo, por motivos operacionais, não ia ter refeição e que por isso tinha sido feito um aviso para as pessoas irem ao restaurante. Enfim, uma meia verdade, disseram que ofereciam um snack, não disseram que o avião não ia ter refeição. Eu até tinha entendido a mensagem de outra forma: oferecemos um snack para jantarem pois quando sairmos daqui já está na hora do pequeno almoço. Afinal estava errado. Mas se há coisa verdadeiramente degradante é ver adultos aos gritos por não lhes darem aquelas comidas ranhosas do avião (e as da TAP são umas sandes particularmente más). Quando chegou a minha vez de entregar o bilhete o assistente olhou para o chão e disse baixinho "não vai ser servida refeição neste voo". Ainda estive para lhe apertar a mão e dizer um obrigado sentido. Não fiz. Podia ser mal entendido. Tendo em conta o que se tinha passado ele iria pensar que estava a levantar a mão para o agredir.

E estou sentado no meu lugar prontinho para partir. Ao meu lado, do outro lado do corredor não é que está o Eng. João de Deus Pinheiro. E não é que ele opta por viajar em segunda classe. Eu, por exemplo, não opto. Não me pagam bilhetes de primeira e quando sou eu a pagar não tenho dinheiro para esses luxos. Por isso é sempre interessante encontrar pessoas que optam pela segunda classe. Por exemplo a Xana já tinha viajado com o Eng. Belmiro de Azevedo, outro que opta pela segunda classe. Talvez seja essa a utopia da social democracia, um dia podermos todos optar pela segunda classe. Talvez um dia.

Estava tudo a correr tão bem, eu já pronto para trocar umas observações políticas com o meu camarada de viagem e a hospedeira de bordo vem estragar tudo. Discretamente convida o meu colega de viagem a mudar-se para a primeira classe. Certamente para não ser desagradável com a senhora ele acede a deslocar-se. Foi um momemento muito feio da parte da hospedeira de bordo. Ele tinha optado pela segunda classe, não é justo retirar-lhe esse direito de optar. Enfim a nossa social democracia não é perfeita.

A minha descrição anterior pode levar a pensar que demorou muito tempo entre o embarque e a descolagem. O que está correcto. Estivemos uma hora dentro do avião até que nos disseram que o avião tinha uma avaria. Será que sem as sandochas do catering a máquina não voa? De qualquer modo já estava um outro avião ao lado para fazermos a troca. Era só esperar pelos autocarros e em poucos minutos estariamos prontos para decolar.

E lá vou eu para o autocarro. Nesta altura já com o ipod nos ouvidos a tocar a banda sonora do Death Proof. Isto para evitar ouvir os pedantes dos belgas da dizer mal de portugal. É preciso ter lata para no país dos outros, rodeado dos outros, mandar bocas numa lingua que os outros compreendem. Será que os gajos nascem arrogantes ou tornam-se arrogantes por aprenderem a falar em francês? Acho bem que os flamengos se tornem independentes. Eu faria o mesmo para não ter que viver com os francorrogantes.

Já o condutor do autocarro era bem português. Viu-nos a sair do avião e não quis saber de mais nada, toca a meter prego a fundo e levar-nos para o terminal 1, rapidinho para podermos chegar a casa cedinho. Mas não amiguinho, não tinhamos acabado de chegar de Bruxelas. Deve ter achado estranho não ver ninguém com grande entusiasmo para sair do autocarro. Depois de conferenciar com alguns passageiros lá percebeu a asneira e meteu todos outra vez dentro e prego a fundo para regressar à pista. Nesta altura aumentei o volume do ipod. Não sei sobre o que se falou no autocarro.

E não é que conseguimos mesmo partir. Já com mais de três horas de atraso, mas tirando isso tudo bem. E o comandante até pediu desculpa pela situação. Porreiro pá, estás desculpado. E até houve sandochas para todos.

E foi esta a história dos acontecimentos que me levaram a estar aqui, agora, no Stella Cafe. Não é certamente uma grande história, nem merece uma crónica, mas estar aqui a relatar os eventos fez-me passar o tempo. Agora já só falta hora e meia para o rent-a-car abrir. Depois é pegar no carro, ir até ao hotel tomar um banho e ir trabalhar. Felizmente portei-me como um urso e hibernei umas 14 horas ontem. Tenho que fazer isso mais vezes, os ursos é que a sabem toda.




Response to “Stella Cafe”


  1. 1 Dulce Vilas Boas November 19, 2007 at 9:36 a.m.

    Impossível não comentar!

    (OK. Prometo que é o último sinal de saudosismo!)

    Enquanto lia foi impossível não recordar a ironia, o sarcasmo e o enoooorme sentido de humor dos textos que escrevias para as aulas de português. Sim, porque muito pedagogicamente a Dra. Isabel Silva (parece-me que não estou equivocada) fazia questão de ler para a turma os melhores textos! Nunca resultou para mim claro porque o fazia de facto... no entanto sempre lhe agradeci muito a atitude! Na verdade aqueles textos - os melhores (onde normalmente se encontrava um da tua autoria) - foram para mim tão ou mais importantes que a matéria "debitada" pela Sra. Professora. Foi precisamente através deles que naquela altura percebi que escrever tem de ser um acto livre, genuíno, pessoal e singular. Por muitos anos que passassem, saberia que o "stella cafe" escrito a 28 de Outubro de 2007 só poderia ser teu.

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